OS NOVOS TEMPOS DA ARCA
Na última reunião do Conselho de Administração Internacional da Federação (CAI), que aconteceu em março na cidade de Lviv – Ucrânia, tivemos o privilégio de ser testemunhas dos novos tempos que estamos vivendo em nossa vida Arca, desde o ponto de vista comunitário, cultural e político. 
(Ione Aparecida Xavier en Ucrania)
A reunião, onde uma das pautas era refletir sobre a importância de viver os novos tempos da Arca, sobretudo a respeito das novas estruturas, foi marcada pela convivência com a recente comunidade de Lviv, fomos muito felizes ao ser contagiados pelo dinamismo incansável de Zenia Kushpeta, membro fundador da Arca na Ucrânia, que nos apresentou a Miroslav, ex-dissidente, com vários anos no Gulag, catedrático universitário e defensor dos direitos humanos, falou um pouco da sua história política e, sobretudo, partilhou conosco o que estão vivendo os ucranianos em tempos de busca de uma verdadeira democracia.
Sob o frio considerável da cidade, pudemos conhecer a interessante proposta desta comunidade, que não tem lares, mas 4 oficinas ocupacionais em um trabalho harmonioso com as comunidades de Fé e luz, os quais foram aceitos como membros probatórios da Federação. Constatamos uma nova etapa de abertura da Arca para este tipo de projetos em nossas diferentes realidades. Pessoalmente partilho com vocês que estar pela primeira vez num país com independência recente, depois de viver muitos anos sob um sistema socialista, me deu a dimensão humana e profunda de nossa responsabilidade como comunidade para contribuir com o essencial das relações, sobretudo numa sociedade onde seus membros vivem divisões e ao mesmo tempo lutam por uma verdadeira democracia. Penso que Lviv foi escolhida por Deus através de Zenia e seus amigos, para começar uma missão muito especial que pode lhes ajudar a resgatar sua dignidade humana como nação.
É uma alegria para nós haver conhecido que a Arca na Ucrânia vive novos tempos.
Ione Aparecida Xavier
Presidente do Conselho Administrativo da ZALCA, ioxavier@uol.com.br
“EU GOSTO PORQUE SOMOS TODOS IGUAIS”

Vivo na Arca de Choluteca, em Honduras, faz uns 21 anos, me chamam de Santos, mas meu nome completo é Santos Hermenegildo Osorto; tenho orgulho em dizer que sou fundador da Arca em Choluteca.
Viver na arca tem sido bonito para mim, porque vivo tranquilo, gosto do amor que há entre todos, do carinho e também das pessoas que se preocupam comigo. Gosto que na Arca todos somos iguais; algumas vezes nos desentendemos, mas é rápido e logo pedimos desculpas.
Eu gostaria que viessem mais assistentes à Arca, agora temos muito poucos. Eu trabalho na oficina da Arca, faço redes de muitas cores, lixo tábuas; pagam-me dinheiro, mas muito pouco.
Também vou a outro trabalho fora da Arca, ao “San José Obrero”, que é de um padre que não me lembro o nome; lá eu trabalho como jardineiro, limpo jardins, recolho as folhas e lá me pagam bem.
Sabe o que eu faço com o dinheiro que ganho? Eu guardo para comprar sapatos, roupa, meias e também o que eu mais gosto, compro coca cola, eu sei que a coca é prejudicial à saúde, mas não é fácil deixa-la. Paty me diz para deixar, mas a verdade é que não posso deixá-la facilmente, porém estou tentando.
Quando era pequeno eu ia a uma escola onde aprendi muitas adivinhações, vou te contar umas, porém tens que adivinhá-las…
O que disse o quadro à parede? ... Desculpa que lhe dê as costas.
O que disse um olho ao outro olho? …vivemos tão perto e não podemos nos olhar.
Gostou? Depois te conto mais.
Santos Osorto, Arca de Choluteca – Honduras
Aa encontro do México
Chegada, dormir e vamos descobrir a cidade, a capital do país que vai me acolher por 2 meses. Do avião temos dificuldade em crer no que vemos... a cidade tão grande. No meio das pessoas, esta européia que sou eu, se pergunta onde me encontro? Este não é um país em via de desenvolvimento; parecia que estávamos na América do Norte, mas então há grupos de indígenas que vieram do campo e dormem nas ruas da capital; muitos manifestantes e alguns surpreendem em traje de Adão. Militares nas ruas. Qual é o valor agregado de todos estes policiais que tentam organizar o trânsito?
Com meu espanhol meio limitado, me ponho a buscar um adaptador para minha câmera fotográfica, esqueci o meu em casa. Há várias lojas, descubro gente serviçal, cordial, pronta a me ajudar para que eu possa desenvolver-me e também curiosos quanto a mim e minhas origens.
Uma semana depois, me mudo a Querétaro. Aproximo-me da comunidade da Arca, mas ainda não vivo nela; primeiro faço uma estadia de imersão no centro da cidade, onde a amiga de uma amiga; isto também é típico. Aqui se ajudam assim e não têm medo, não são desconfiados; são orgulhosos de apresentar seu país, sua cidade; há!!! e como são pacientes com as limitações lingüísticas desta estrangeira.
Em fim chego à Comunidade, é pequenina, mas com muita vida. Um lar, una oficina e um montão de relações, de amizades com as pessoas de Santa Bárbara, o bairro onde se encontra o lar. Tenho um pouco de dificuldade para integrar-me, compreendo menos da metade do que se diz; mas Iván, José, Moi, Anna-Laura e Bertha, me dão tempo; como também os assistentes. Observamo-nos, nos conhecemos, faço um curso do idioma.
O lar se converte em minha casa. Assim vou descobrindo o país e principalmente descubro seus homens e suas mulheres. Sentada na praça das Armas de Querétaro, olho as pessoas que passam, é um ponto de encontro na frente da igreja de Santa Bárbara, depois da missa, quando todo mundo conversa e comenta. O ônibus, as praças, as ruas e as lojas se transformam num teatro. Na medida em que meu espanhol progride, sou convidada a entrar em cena, portanto, o fato de ser européia, loura, de olhos azuis, num país com una história tão forte de colonização, não é tão fácil. Atrás da fachada de ser mexicanos orgulhosos de seu país, prontos a enfrentar e rir conosco, estão presentes os vestígios vividos sob a ocupação e uma identidade de múltiplas origens, indígena, espanhola o de outras partes.
Em somente dois meses, não pude descobrir mais que uma pequena parte deste mosaico que é o México. Temos que regressar, pelo país, por Ivan e Bertha; por Cris e Rodrigo; por Chavo e Moi, por Nancy e José; por Rafa e Anna Laura, Vero e Kathy e por tantos outros.
Tina Bovermann
Responsável da Comunicação da Federação.
Témoignages 
APRENDER COM A DIFERENÇA
Sou médico oncologista pediátrico, e trabalho em um serviço público do estado, o que, por si só, me faz pensar que minha cota cotidiana de filantropia já é assim cumprida, ante as agruras das condições de trabalho e sua má remuneração. Mas o que importa é que realmente gosto muito do que faço. E além de ser médico, gosto também de escrever e de cozinhar.
E foi cozinhando, num jantar de amigos, há sete anos, que conheci Ione, hoje presidente do Zalca e uma grande amiga, que me pediu que fizesse um jantar como aquele para a Arca do Brasil , visando a arrecadação de fundos, colaboradores, e uma maior visibilidade da instituição. Envaidecido por alguém acreditar que meu jantar teria todo esse poder, considerei a proposta irrecusável, e coloquei-me à disposição quantas vezes fossem necessárias, com uma condição: Que nunca tivesse que ir à instituição. Condição aceita, jantares se sucederam e anos se passaram.
Hoje, sou o Presidente de Conselho Administrativo. E ante minha resistência inicial ainda me pergunto o que aconteceu para tanta transformação: de uma pessoa certamente preconceituosa e intolerante, inapta para lidar com as limitações de outrem, e bem provavelmente com as próprias, até o líder engajado, afetivo, compromissado. De ateu pouco convicto ao crédulo amoroso, passo a passo fui desenhando uma nova forma de ser e de pensar. Só a religião não explica.
O contato com uma pessoa que não fala, ou que talvez não entenda, cuja deficiência parece prendê-la em seu próprio mundo nos faz questionar nossos próprios limites, e rever nossos valores. Acho que foi isso que aconteceu comigo.
Experiências extraordinárias como o dia em que retornei a um dos lares de São Paulo, depois de uma batalha burocrática exaustiva junto ao fórum da Lapa, vitorioso com os dois certificados de curatela nas mãos, através dos quais outras batalhas seriam enfrentadas buscando os benefícios sociais de dois dos nossos acolhidos. 
Era uma noite fria e acenderam a lareira. Eu estava cansado, e fiquei ali admirando o fogo, quando, de repente, reparei que Tiago e Anderson tinham se aninhado ao meu lado, enquanto a casa seguia seu ritmo frenético de assistentes preparando o jantar e outros acolhidos correndo de um lado ao outro, ou vendo televisão. Apenas eu, Thiago e Anderson juntos e quietos, admirando o fogo. Justamente os dois dos quais eu acabara de receber a responsabilidade jurídica da curatela. Um sentimento inexplicável me tomou: de alguma forma eles sabiam. Sim, eles sabiam, e estavam ali, ao meu lado, como que agradecendo, como que comemorando comigo. No silêncio de suas deficiências, eles sabiam. Meu coração se encheu, como há muito tempo não me sentia tão pleno e feliz. De alguma forma aquilo bastava.
Nunca em minha vida havia sentido Deus tão presente.
Rui Terenzi Neuenschwander
Presidente do conselho administrativo
Arca do Brasil, rui.terenzi@uol.com.br
AS COMUNIDADES DA CATALÚNIA: EL RUSC E ELS AVETS

Há 30 anos começou a história da Arca na Espanha, concretamente na Catalúnia, no nordeste do país. Um médico aposentado, Dr. Pujol, com sua mulher e seu filho Joan com Síndrome de Down, decidiram formar uma comunidade em uma casa no meio do campo no povoado de Tordera e acolher pessoas com deficiência intelectual, especialmente as mais desprotegidas. Muitos jovens se uniram a este projeto e começou assim a comunidade El Rusc (que quer dizer a Colméia, em catalão, o idioma falado na Catalúnia). Já no começo, Dr. Pujol esteve em contato com a Arca e em seguida a comunidade passou a formar parte da federação. Uns anos mais tarde, esta comunidade recebeu uma casa de herança no povoado de Moiá, a uns 90 Km de Tordera, doação de uma senhora francesa que conhecia bem as comunidades da Arca. Decidiu-se abrir una nova comunidade ali e foi posto o nome de Els Avets , lembrando os grandes pinheiros que presidem a entrada do primeiro lar. Els Avets celebrou no ano passado seu 25º aniversário.
Atualmente, El Rusc acolhe 17 pessoas em dois lares e uma oficina. Els Avets também acolhe 20 pessoas em dois lares e uma oficina. Nas duas oficinas, se elaboram basicamente produtos artesanais como papel reciclado, cerâmica, mosaico, brincos… e também trabalham para empresas, manipulando material escolar. 
Nossas comunidades, a pesar de hoje funcionarem com autonomia, compartilham uma grande parte de sua história. Atualmente estamos em um momento onde cada comunidade tem sua própria vida integrada no povoado que a acolhe, com muitos projetos novos de crescimento e integração.
Estamos muito interessados em unir esforços e criar laços de amizade com as comunidades da América Latina, já que, a pesar de separar uma grande distância física, compartilhamos um mesmo idioma, uma mesma espiritualidade e uma mesma maneira de viver com as pessoas com deficiência intelectual. Este pequeno artigo é uma mostra de nossa vontade de ter uma maior relação para conhecer um pouquinho mais suas comunidades e criar laços de amizade.
Por: Roser Blázquez
Responsável da comunicação das Arcas na Espanha.
COMUNICACION@ARCALATINA.ORG- www.arcalatina.org






