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Julho 2008 - Versão PDF - Publicação Especial da Arca da américa Latina e Caribe - Versão español

"Talvez o maior sinal de Deus seja um menino pequeno que ama"

Assim disse Jean Vanier, em encontro especial para as comunidades da Arca na América Latina. Na sua casa, em Trosly-Breuil, França, falou do amor, do papel da fé na Arca, das feridas do coração do homem e da situação social na América Latina, entre outros temas.

Texto e fotos: María Mullen

COM OS BRAÇOS ABERTOS

TROSLY-BREUIL (FRANÇA)- Um galho se move num canto e no meio de um arbusto aparece um homem muito alto. Com os últimos raios do entardecer às suas costas, Jean Vanier, com quase 80 anos e recém chegado do Congresso Eucarístico no Canadá, se aproxima sozinho e surpreendentemente vindo da rua. Não responde a seu cansaço, mas à sua vontade de visitar uns minutos o lar "Le Petit Val Fleuri", um dos tantos do pequeno povoado de Trosly, ali onde em 1964, sentiu o chamado de Deus para fundar a Arca . Hoje, comunidades que dão lar a pessoas com deficiência intelectual e onde se busca descobrir e revelar seus dons e dar a conhecer o importante papel que cumprem na sociedade. A Arca está presente nos cinco continentes, com 135 comunidades em 35 países, incluindo Índia, Canadá, Egito, Japão, Síria, Haiti, Alemanha, EUA, Brasil, Argentina, entre muitos outros.

Com grande naturalidade e simplicidade, Jean Vanier se aproxima com esse olhar sereno e filosofa, tem um passo tranqüilo e um sorriso tímido. Veste camisa azul celeste e o casaco azul de sempre. Logo sai Regina , uma assistente de longo prazo, Jean deixa escapar uma alegre exclamação: "Ohhh..!" . Estende seus braços ao máximo e sem reservas, dá seu mais caloroso e carinhoso abraço. O gesto se repete com outro amigo. Sua mão fraterna ao ombro, seu ouvido atento e sua palavra vigorosa não se fazem esperar. Contagia uma alegria e um espírito muito forte, até parece que o ar se enche de luz. Não são necessárias palavras: sua presença confirma tudo o que se escreveu dele. Cada gesto seu é uma imagem viva da ternura e do amor que prega. Talvez um reflexo do mesmíssimo amor de Deus por cada um de seus filhos.

EM VOZ PRÓPRIA

De sua casinha localizada na estreita “ Rue de Marillac ” (Rua Marillac), Vanier me recebe como representante das comunidades da Arca da América Latina e Caribe (México, Honduras, República Dominicana, Haiti, Brasil e Argentina). O intenso canto dos pássaros cobre o lugar com um manto de paz. Grandes e jovens em cadeiras de rodas, com Síndrome de Down e outras dificuldades, entram e saem dos lares em volta. Alguns voltam do trabalho nas hortas e oficinas. A uns poucos metros, todavia, se conserva o primeiro lar onde começou esta Arca. Uma humilde madeira, como a de uma barca, indica: “L´Arche”.

Com muita alegria, entre alguns risos e recordações da América Latina, Jean recebe os presentes, fotos e saudações das comunidades da América Latina. Logo, com sua voz pausada, começa a remarcar os aspectos mais importantes da Arca.

"O coração da Arca -diz Vanier- é descobrir que a relação e a amizade com o pobre ou com a pessoa com deficiência mental é capaz de mudar-nos e transformar-nos por completo... Eles são capazes de dar algo especial quando os conhecemos. Você verá...há uma grande diferença entre a generosidade e o encontro; que é esse aproximar-se e estar na presença de outro. É o grande tema da Arca: passar da cabeça e da mente... ao encontro , à relação. Quando me encontro com outro, já não o julgo. Ao contrário, sou capaz de converter-me em seu amigo, algo muito diferente".

Como encontra a situação social na América Latina?

Na América Latina, a brecha entre os ricos e os pobres é muito forte. Recordo que em uma visita ao Chile, para dar um retiro, enquanto ia do aeroporto até Santiago, o motorista me disse: “deste lado estão os pobres e deste os ricos. Mas ninguém cruza de um lado ao outro”. Isto é uma realidade que torna difícil crer no evangelho, no amor aos inimigos, nas bem-aventuranças... Quando começamos a Arca em Honduras, em nossa visão queríamos criar um lugar que fosse uma ponte entre ricos e pobres. Em teoria, tratava-se de uma ponte, mas na realidade, os membros do conselho tinham dificuldades de relacionar-se com os que viviam no lar. Davam e faziam muitas coisas, mas não entravam em relação... Outra dificuldade presente na América Latina é que durante muito tempo, quem trabalhava com os pobres também era considerado comunista.

Você fala muito de fragilidade, do valor de reconhecer as feridas e de encontrar nelas algo positivo... Mas como reconhecê-las primeiro? Como é que nossa fragilidade pode ser algo bom?

Sucede. Há coisas que dificilmente se consegue falar. Trata-se de uma experiência.
Quando alguém se apaixona e começa a amar, se torna vulnerável. Eu sou muito vulnerável. Sou, por exemplo, com alguns aspectos da Igreja. Porque gosto tanto dela, me dói muito quando encontro dureza. Eu creio nela, assim como creio nas pessoas com deficiência mental.
Na Arca, as pessoas podem zangar-se, ser violentas… Muitas vezes conseguem destapar nossas próprias feridas. Mas é nessa aceitação das feridas, onde acontece a comunhão. Essa experiência pode nos ensinar o caminho do perdão, da ternura, do amor...

Onde você vê essa imagem e semelhança de Deus, da qual fala o Gênesis, nas pessoas com deficiência mental?

Qual é o grito das pessoas com deficiência? É porque querem poder e dinheiro…? Seu grito é para serem vistos, serem encontrados. Choram por uma amizade… Quando você se converte em amigo de alguém, começa a amá-lo (e a amá-lo com sua liberdade). Quando amamos, nos tornamos vulneráveis. Eu percebo que Deus é extremamente pequeno e vulnerável... Talvez o maior sinal de Deus seja um menino pequeno que ama. Fazendo-nos amigos das pessoas com deficiência mental, resolvo o mistério da trindade. A Trindade que é o amor entre o Pai, o filho, o Espírito Santo e um amor que só acontece em uma relação. Então alguém pode perguntar-se o que é o essencial do ser humano, a razão ou o coração? O mistério do ser humano é que somos coração. Quando nos tornamos velhos já não podemos fazer coisas nem raciocinar como antes, mas temos um coração.

Na Atualidade, com os avanços científicos, há mães que decidem abortar seus filhos se descobrem uma deficiência, O que você opina a respeito?Você imagina possível um mundo sem pessoas com deficiência intelectual?

Nunca existirá um mundo sem deficiência. Com as tecnologias, haverá mais e mais pessoas com Alzheimer. Na França, uma em cada três pessoas é maior de idade. Antes, era um em cada cinco. Muitas das pessoas que vivem na Arca, não nasceram com uma deficiência, mas foi adquirida. Creia-se ou não, todos nós vamos morrer. Vamos ser frágeis e dependentes, como quando nascemos. Há algo em nossa sociedade que quer o poder e o controle. As pessoas com deficiência levam tempo, dinheiro e recursos humanos… Mas o que necessitamos mais os seres humanos? Poder ou capacidade de relacionar-nos?

Sendo inter-religiosa A Arca adota alguma postura firme em debates como o aborto ou a paz...?

Em primeiro lugar, antes de entrar em debates, somos chamados a viver . Há um grande debate em torno da preservação da vida. Eu digo sim à vida. Há quem se declare "anti-aborto", mas ao mesmo tempo o que fazem com as pessoas com deficiência? Não me faz feliz quando vejo tantos cartazes anti-aborto e, logo depois, bebês que são abandonados em instituições. Eu sou contra o aborto, mas questiono. Na Arca celebramos a vida, damos boas-vindas às pessoas com deficiência. Temos que criar modelos. Pessoas com deficiência, sempre haverá muitas, mas pessoas que vivam com eles? Somos em parte, um paradoxo. A Arca é um paradoxo. Nem sempre é fácil.

Há pessoas que me dizem "você está fazendo um bom trabalho". Não cheguei à Arca para "fazer um bom trabalho", eu não estava interessado nisso. Temos muitas pessoas que vêm aqui e que não são cristãos, mas são boas pessoas. Eu creio que é melhor ter pessoas aqui que não crêem em Deus, mas crêem nas pessoas com deficiência, que as pessoas que crêem em Deus, mas não nas pessoas com deficiência. Isto significa que são marginalizadas? Uma vez mais, me sinto vulnerável com todas estas perguntas.

…Você foi o primeiro assistente na Arca, que coisas foram mais difíceis que teve que enfrentar?

A vida diária. Não havia grandes dificuldades porque eu estava convencido. Convencido de que era bom. E quando alguém está convencido, nada é difícil. Tratava-se de uma visão, uma forma de vida para mim. Confiava e seguia à diante. Logo, pouco a pouco, as coisas se aclaravam. Algo que foi muito difícil para mim foi quando me pediram para tomar as rédeas do Instituto “Val Fleuri”. Fiquei sozinho com trinta pessoas, alguns deles muito violentos... Mas, outra vez, se a pessoa está convencida de que é o correto e se comprometeu com uma visão... Segue à diante. A importância é como ajudar às pessoas a comprometer-se com uma visão no futuro.

Agora, é muito difícil comprometer e convencer os jovens…

É muito importante dar palestras nas universidades e falar da boa vida que nos ensina o caminho do evangelho. É complexo… tem religião, tem evangelho... Não gosto de separá-los muito, mas a realidade está aí. Portanto, trata-se de querer ter uma experiência do Evangelho.

Às vezes, tão pouco é fácil falar do evangelho… Como fazê-lo a aqueles que não partilham a Fé cristã?

Falar de Arca não é fácil, por isso tem que experimentá-la. Vir e viver aqui, rir, cantar e dançar. Aí as pessoas se surpreendem. Encontram pessoas felizes, mais relaxadas…

Qual é o papel da fé na Arca?

Essencialmente crer no amor. Todo mundo vai crer no amor. Jesus veio anunciar a boa notícia para os pobres e anunciar a boa notícia é dizer "Te amo e quero viver contigo". É o mistério da Encarnação. O Verbo se fez carne, Ele disse que queria viver conosco ; não ficou nos dizendo o que fazer...

Faz pouco tempo, dezenove futuros sacerdotes vieram viver na Arca. Ao finalizar o período, todos disseram que se sentiam transformados por ter vivido aqui. Eu me perguntava como essas pessoas, que estavam se convertendo em sacerdotes, diziam que logo depois de viver um mês conosco (que somos vistos como uns loucos), se sentiam transformados. O que os transformou? Pois bem, eles passaram das idéias... Passaram do valor das idéias, do valor do êxito ou do valor de fazer um doutorado ou um mestrado... Ao valor de uma relação. Ao relacionar-se, ao começar a amar algumas pessoas, começaram a sentir preocupação por elas, a escutar sua dor... A relação os tornou vulneráveis. Você vê: quando alguém escuta sua cabeça, não tem perigo, mas quando olha para baixo (no seu coração) e entra em uma relação, isso se converte em "perigoso". É como a história do bom samaritano...

Você me perguntou pela fé. E responder à fé é crer no amor e compromisso do amor. Trata-se de crer na mensagem do evangelho, ainda que não se saiba o que é isso. Porque a mensagem do evangelho diz que cada pessoa é importante . E também diz que para renovar a sociedade, se começa com os pobres. Ainda que muitas pessoas não queiram entender isso.

Desde jovem e enquanto estudava, você sempre se perguntava pela felicidade e o caminho até ela. Inclusive, alguma vez, afirmou que você elegeu este caminho para ser feliz, não por caridade... O que pode dizer da felicidade?

A felicidade só pode existir enquanto a vida flui. Você pode por na minha frente dinheiro, poder e coisas, mas a felicidade é... Dar vida. O mistério dos seres vivos é que dão vida (durante gerações, cada espécie da vida a outra). A felicidade é dar e receber vida e isso é também relação. Creio que a felicidade eterna será o mesmo. A vida em contínuo movimento. A felicidade não está só nos conhecimentos, está em uma vida que flui. A beleza aqui, celebrando a vida juntos.

Na Arca, transformou-se sua relação com Deus? Como era antes, como é agora..?

É uma pergunta que abraça toda minha vida...! Quando era pequeno, só ia à missa nos domingos... Quando estive na Marinha, comecei a ter mais interesse em Deus... No presente, já não uso muitas palavras. Descanso. Creio na presença e na ternura de Jesus. ...Tenho dificuldades para rezar, cantar ou inclusive ler, porque me falta energia. Minha relação agora é mais tranqüila, mais em silêncio. Claro que nem sempre foi assim… Tem algo a ver com minha idade agora, mas também com o que o Padre Thomas também me ensinou: a estar em comunhão, estar aberto...

Você é leigo, Crê que a vocação dos leigos tem uma responsabilidade maior na igreja católica?

Eu creio que todas as vocações são importantes. Mas me chama a atenção quando me dizem "reze pelas vocações", fazendo referência exclusivamente às vocações religiosas. Claro que estou de acordo em que as freiras e os sacerdotes são importantes para a Igreja, mas e as pessoas com deficiência? Elas também têm uma vocação na igreja, igual que os demais.

Qual você crê ser a maior “deficiência” da sociedade atual?

A competição. A busca desenfreada por ganhar e separar o mundo entre ganhadores e perdedores; inclusive, não dar a alguns nem sequer a possibilidade de perder. Devemos passar de uma sociedade da competição a uma sociedade de relações humanas.

Como conseguir viver nossa missão sendo tão pequenos? A Arca é pequena, eu sei. Mas não se trata só de um lugar agradável onde se cuida de pessoas com deficiência. Sabemos que não somos a solução a todas as pessoas com deficiência mental, mas sim queremos ser um sinal para a sociedade. Sinal de que cada pessoa é uma história sagrada e que se pode ser feliz, se pode amar e alcançar a paz, a pesar das diferenças e das fragilidades. A Arca é uma realidade muito frágil, porque somos chamados a viver com as pessoas frágeis. Gostaríamos de ser fortes, ter muito dinheiro, muitos assistentes, muito disso e daquilo. Mas temos que viver com a fragilidade... E apesar de que somos pequenos como a goteira de uma nascente. Apenas uma pequena gota diante de um rio de poder, competição e dinheiro. Só se tem que caminhar por um bairro pobre ou por um Instituto Psiquiátrico e se encontrará com tantas perguntas… Que se entenderá a visão da Arca.

 


Entrevista realizada por María Mullen
Responsável da comunicação na Arca da América Latina e Caribe
Mais info: comunicacion@arcalatina.org

www.arcalatina.org / www.jean-vanier.org / www.larche.org